Uma questão de tempo

 

Uma questão de tempo

 

Rudy Kurniawan estará, em breve, retornando ao mundo dos livres mortais. Não poderá mais dirigir seu Lamborghini ou voltar para sua mansão na Califórnia. Por quantos milhões de dólares você passaria de oito a nove anos trancafiado? De forma bem despretensiosa e desrespeitosa, ele pediu para pagar por sua passagem. O sem noção quis pagar pelo upgrade para a primeira classe dos EUA à Indonésia. Todos esses anos na cadeia em nada parecem ter mudado Mr. Conti.

 

Você sabe de quem eu estou falando? Estou falando do mais famoso falsificador de vinhos raros dos últimos tempos. Estou falando de uma pessoa registrada na Indonésia como Zhen Wang Huang. Em 1990, entrou nos EUA como estudante, seu visto venceu, seguiu de forma ilegal enganando muitas pessoas, e ficou também conhecido como Mr. 47, em referência à grande safra do vinho Romanée-Conti de 1947, tamanha paixão por esse vinho.

 

Foi desmascarado em 2012, mas viveu anos e anos de gastos milionários. Chegou a vender mais de 35 milhões de dólares em leilões e, em 2008, havia comprado uma mansão de aproximadamente 8 milhões de dólares em Los Angeles. Vivia cercado de amigos famosos, também milionários e apaixonados por vinhos raros, confiantes que nunca seriam enganados. Foi preso na casa que dividia com sua mãe. Nessa batida, os investigadores descobriram milhares de rótulos impressos, rolhas, cápsulas, carimbos, papéis especiais e garrafas vazias. Um laboratório de vinificação.

 

Gosto dessa história. Me intriga a audácia do falsificador. Desaprovo falsificações e descaminhos de qualquer natureza. Já li muita coisa sobre a vida dele. Já assisti documentários sobre a trajetória dele. Intrigante liberdade de criação e de imaginação. Será que ele estudou enologia?

 

Teria ele se formado sommelier em alguma escola dos Estados Unidos? Será que ele teve ajudantes que conhecem a fundo o mundo dos vinhos raros? Como será que uma pessoa pode falsificar um Romanée-Conti de safra 1971 ou 1947 sem nunca antes ter provado um desses vinhos? Provar seria o suficiente para copiar? Claro que não.

 

Onde será que os rótulos foram impressos com tamanha verossimilhança, qualidade e pequena tiragem? Nenhuma gráfica expressa poderia ajudar nesta difícil tarefa. Ninguém se deu conta de que estavam ajudando um falsário? Estariam eles sendo bem pagos pela impressão dos rótulos?

 

Li, em alguma matéria, que ele solicitava que as garrafas consumidas em seus eventos fossem devidamente guardadas e enviadas de volta para a sua casa. Prática não muito comum, mas no mundo dos vinhos raros seria possível. Ninguém desconfiou do que seria feito com uma garrafa vazia?

 

Com o passar dos anos, os investigadores descobriram que ele também era um grande comprador e consumidor de vinhos antigos e a granel da França. Seriam esses vinhos utilizados na mistura? Teria ele um laboratório de assemblage em sua casa, além de garrafas vazias e já rotuladas? Seria possível usar vinho velho e simples originário da França com vinho de mesmas uvas e mais novo dos Estados Unidos e criar uma pérola? Como foi possível enganar conhecedores? Essa mistura tinha no nariz a antiguidade da França e a força do vinho novo americano?

 

Convenhamos, o indonésio, além de dito herdeiro de uma fortuna familiar, era bom de papo, de paladar, de vendas diretas e também de assemblage. O talento dele estava em ter uma excelente e única memória olfativa e de se recordar do que tinha provado? Pois não imagino ser nada fácil replicar vinhos famosos e conseguir enganar por tantos anos conhecedores e apreciadores de vinhos desse nível. Ele acertou mais do que errou nesses anos.

 

Como foi possível ele replicar a verdadeira ou mais próxima similaridade de tipicidade dos vinhos raros e evoluídos? Qual a técnica utilizada? Ele aprendeu sozinho? Muito mais difícil do que falsificar um quadro que se pode ser visto por horas e horas a fio. Será que ele bebia vinhos verdadeiros, originais e caros nos eventos? Chegava em casa e, de memória, desenhava um parecido?

 

Foi pego por utilizar uma safra equivocadamente impressa em uma de suas falsificações. Criou um vinho em um ano em que o produtor não existia ou em que não produziu aquele vinho. Descuido na pesquisa? Relaxamento, talvez. Uma pena, ele deve ter pensado, pois o vinho falso estava muito bom. Infelizmente ele não foi pego por terem descoberto que o vinho não era verdadeiro.

 

Imagino que ele retornará com tudo, sem dó e com muitas novidades engarrafadas. Aposto que, até o final do ano de 2021, iremos ouvir novidades desse falsificador. E não duvido que ele apareça com uma marca própria ou até mesmo sua própria vinícola.

 

Texto: Julio Gostisa

 

 

Ilustração: ©Nilton Santolin

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