PERDA DE UM AMIGO

 

PERDA DE UM AMIGO

 

Hoje, não irei escrever sobre um vinho, mas sim sobre um grande amigo com quem tive o imenso privilégio de ter convivido nos últimos onze anos. Estou falando de um artista plástico, escultor, pintor, grande apreciador de vinhos, empresário, empreendedor, pai apaixonado, desenhista de joias, marido dedicado e mestre em gastronomia. Comunicativo como ninguém, nascido na cidade de Nova Bréscia, há 60 anos atrás.

 

Estou falando do meu amigo: Gelson Ivo Radaelli.

Confesso, muitas vezes eu tive ciúmes.

Isso mesmo. Não tenho vergonha em dizer.

Só quem se apaixona de verdade tem ciúmes.

 

Eu gostava tanto dele que ficava com inveja de jantares em que eu não havia sido convidado ou que não poderia participar por um motivo ou outro. Na verdade eu não queria dividir o meu amigo com mais ninguém. Estranho né? Mas verdade.

 

Era uma Sexta feira, fazia frio. Naquele inverno de 2009, chovia muito em Porto Alegre. Eu estava em casa, sentado no sofá, lareira acesa e minha esposa ao meu lado. Pelo correio eu tinha recebido um folheto de uma loja de vinhos, que anunciava uma mega-promoção de 12 taças de cristal por R$ 199,00. Levantei e decidido me encaminhei até a loja. Eu nem precisava de taças de cristal para ser sincero, mas não sei o motivo de tanta certeza.

 

Chegando na loja, já tinha uma pessoa analisando as mesmas taças. Eu e ele estávamos sozinhos e nos demos conta de que não se tratavam de taças de cristal! Fomos juntos conversar com quem cuidava da loja. Reclamamos e acabamos sem uma explicação coerente, mas com uma taça de um bom vinho nas mãos. Fomos muito bem tratados, depois da reclamação.

 

Ficamos por um bom tempo conversando, sobre vinhos, revistas, viagens, restaurantes e outros assuntos. O cara me disse que era cozinheiro. Lembro muito bem. Quando fomos embora, ele escreveu em um papelzinho o nome dele junto com o número do celular. Dizia gR e um número. Naquele momento eu não tinha a menor ideia que minha vida iria mudar e que eu tinha conhecido o dono do Atelier de Massas! Quanta ignorância da minha parte! Só me dei conta de quem realmente eu tinha conhecido quando cheguei em casa e minha esposa me ajudou a entender o que o destino tinha me reservado.

 

Eu estava encantando com meu mais novo amigo. Procurei tudo o que tinha sido escrito sobre ele na internet. Cheguei ao mais profundo da internet. Achei a arte dele cinza, levemente depressiva, mas algo me atraia àquela pessoa e toda sua arte fazia total sentido para mim. Incrível a sintonia que o universo tinha gerado, com uma força de me tirar de casa. Não tive dúvida, peguei o telefone e liguei para ele. Então, nunca mais me afastei!

 

Juntos desenvolvemos uma rotina e amizade maluca. Sempre que podíamos, nos reuníamos no restaurante nas sextas-feiras e passávamos horas falando sobre o mundo. Não tínhamos agenda, simplesmente gostávamos de estar juntos. Desenhamos projetos de vinhos, espumantes e de publicações impressas de suas obras. Fiquei amigo de toda a sua grande equipe de colaboradores e artistas mais próximos. Inesperadamente, às três da madrugada meu telefone tocava. Era ele, então eu o atendia. Nossa, como eu fui feliz ao lado dele!

 

Era tão bom estar do lado do Gelson, mesmo quando ele não falava nada.

 

Ele ficava quieto, olhar de lince, cuidando de todos os detalhes. Sempre atento, envolvido, gritando ordens, um pouco atrapalhado ao mesmo tempo. Ansiedade em busca pela perfeição. Mistura de inteligência, acima da média, com uma ironia italiana. Queria sempre sentar virado para a porta, para ver quem estava entrando em seu restaurante. Quando os olhos dele brilhavam de forma mágica, eu sabia que Tulia, Teo ou Rogéria haviam acabado de entrar. Eu tinha certeza. Destes três eu não tinha ciúmes. O carinho e amor pela família eram contagiantes. Hoje, sou um pai e marido melhor por causa do Gelson.

Porém ele se foi, muito cedo. Tínhamos tanto o que conversar, tínhamos uma lista de projetos, me recordo que haviam, pelo menos, quatro novos projetos de rótulos de vinhos, que estavam sendo desenhados a quatro, seis, oito ou até mesmo dez mãos. Quem sabe um dia, eu consiga forças para dar continuidade a estes projetos.

 

Como ele pode ter tantos amigos verdadeiros? Acho que o maior talento dele não estava na cozinha, nos vinhos ou com os pincéis, mas sim na arte de fazer amigos e de ajudar as pessoas. Hoje, sei que a mesma paz de espírito que eu vivia quando estava com ele, tenho quando olho as obras dele que temos espalhadas por minha casa. Minha filha pinta por causa dele. Nossa, que privilégio! Eu pude enviar desenhos e pinturas da minha pequena para meu melhor amigo.

Ele adorava!

 

Gelson, registro aqui com esta coluna, o meu muito obrigado por me ajudar a entender as angústias da existência humana.

 

Crédito foto: ©2020 Nilton Santolin

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