Nova IP da Campanha Gaúcha será lançada este ano em safra histórica

Aprovação da Indicação de Procedência coincide com melhor colheita da década e cenário cambial favorável ao vinho brasileiro

Após uma safra histórica, as vinícolas da Campanha Gaúcha estão trabalhando em equipe para lançar ainda em 2020 os primeiros vinhos sob a nova designação de Indicação de Procedência (IP), concedida em maio pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) em nome da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha. Estamos falando da segunda maior região produtora do país, a mais nova IP nacional abrange uma área de 44.365 km2 na fronteira com o Uruguai e a Argentina, sendo válida para vinhos finos dos tipos tintos, brancos, rosados e espumantes.

A excelência da nova safra é endossada por Marcos Gabbardo, especialista em Enologia da Universidade Federal do Pampa (Unipampa): “o regime de chuvas entre 2019 e 2020 foi 50% menor do que o normal, com uma precipitação 40% abaixo da média entre fevereiro e março, o que possibilitou uma sanidade perfeita das uvas e uma ótima colheita”. O especialista conta que a temperatura elevada também favoreceu a concentração de açúcares nas uvas, que chegaram a desidratar nos vinhedos. Apesar do calor, ele destaca ainda a presença de noites frias na região, o que favoreceu a manutenção da acidez nas frutas.

Cenário econômico favorece indústria nacional

Além de uma safra excepcional, o lançamento dos primeiros rótulos sob a IP Campanha Gaúcha coincide com um cenário cambial favorável à competitividade dos vinhos nacionais frente aos importados, com o Dólar próximo aos R$5,00. “A competição dos vinhos brasileiros acima dos R$ 30,00 passa a ser com um vinho importado de menor qualidade, analisa Felipe Galtaroça, sócio da Ideal, consultoria especializada em dados e tendências do mercado de vinhos. Ou seja, “os importadores terão de buscar um vinho de categoria inferior para conseguir manter uma oferta de até R$ 50,00 – que é a maior faixa de consumo no Brasil”, explica ele.

No entanto, Felipe pondera que é preciso levar em conta o crescimento das importações diretas de vinhos dos supermercados no início de 2020, período que antecedeu a valorização do Dólar e a pandemia do Coronavírus. Otimistas nos primeiros meses do ano, os supermercados aumentaram exponencialmente os seus estoques de vinhos importados, que precisarão ser vendidos com promoções mais agressivas nos próximos meses. “Fora este ponto, vejo um cenário bastante positivo para a competitividade do vinho brasileiro”, conclui ele.

Somando-se ao Dólar valorizado, a pandemia do Coronavírus também inibe as viagens internacionais, o que deve favorecer no curto e médio prazo o enoturismo nas regiões vitivinícolas brasileiras. Segundo a última pesquisa da Organização Mundial do Turismo (UNWTO), 75% dos destinos turísticos globais seguem com as fronteiras fechadas, com expectativas de que a retomada seja lenta e gradual. No mesmo sentido, pesquisas sobre o comportamento dos consumidores realizadas por instituições como a Wine Intelligence e a Euromonitor apontam uma tendência de revalorização de produtos locais, particularmente em momentos de crise como a atravessada atualmente. Neste contexto, o cenário favorável ao enoturismo é outro fator econômico que deve beneficiar a indústria nacional do vinho nos próximos anos.

A região por trás da nova IP

Situada entre os paralelos 29º e 32º Sul, a Campanha Gaúcha encontra-se na mesma faixa de latitude de outras célebres regiões vitivinícolas do mundo, incluindo Argentina, África do Sul, Nova Zelândia e Austrália. De acordo com o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Jorge Tonietto, trata-se de uma zona ensolarada, com as temperaturas mais elevadas e o menor volume de chuvas entre as regiões produtoras do Sul do Brasil. Ao mesmo tempo, as parreiras – predominantemente plantadas em sistema de espaldeira – foram estabelecidas em grandes extensões de planície com encostas de baixa declividade, o que favorece a mecanização das colheitas, reduz os custos e potencializa a escala produtiva.

Dentre as variedades de uva produzidas na Campanha Gaúcha, Marcos destaca três: “os Chardonnays da Campanha Gaúcha, principalmente dos solos arenosos, apresentam uma característica frutada muito interessante com aroma de abacaxi; os Tannats têm uma exuberância de teor alcoólico e ótima estrutura; enquanto os Cabernet Sauvignons se diferenciam de outras regiões brasileiras por serem muito frutados, com aromas agradáveis e sem a presença exagerada de pimentão verde”, descreve ele.

Degustação direcionada e exclusiva

Com o lançamento dos primeiros rótulos sob a nova IP, estes são alguns exemplos de tipicidade dos vinhos produzidos na Campanha Gaúcha, garantidos pelo selo de procedência da região. De acordo com a Associação dos Vinhos da Campanha Gaúcha, os brancos e rosés devem ser os primeiros rótulos a serem disponibilizados no mercado, seguidos pelos espumantes e tintos.

Nas últimas semanas, fizemos uma série de degustações virtuais com jornalistas e influenciadores a nível nacional diretamente envolvidos com o mundo do vinho. O novo momento nos obrigou a selecionar um vinho de cada uma das 18 vinícolas da Campanha Gaúcha, enviá-lo com todos os cuidados de higiene a casa de cada convidado e depois em conjunto com os produtores elaboramos a degustação virtual falando sobre a nova IP, safra histórica e cada um dos vinhos. Tudo correu muito bem e certamente teremos outros eventos semelhantes neste ano.

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