Fundação Iberê reabre dia 1º de maio com cinco exposições inéditas

 

Fundação Iberê reabre dia 1º de maio com cinco exposições inéditas

 

Além das mostras “O Fabuloso Universo de Tomo Koizumi” (Japão), “Modelar no tempo: Iberê e a moda” e “O Gesto Crispado”, de Arnaldo de Melo (São Paulo), a reabertura marca a primeira individual de Eduardo Haesbaert na instituição, com uma homenagem ao seu melhor amigo, Gelson Radaelli.

 

Após dois meses, a Fundação Iberê reabre suas portas no dia 1º de maio (sábado) com três grandes exposições: “O Fabuloso Universo de Tomo Koizumi”; “Um rio que passa”, de Eduardo Haesbaert; e “O Gesto Crispado”, do paulistano Arnaldo de Melo. Em diálogo com a mostra do estilista japonês, será apresentado, pela primeira vez, o “passeio” de Iberê Camargo pela moda.

 

“Modelar no tempo: Iberê e a moda” traz, como pesquisa em andamento, oito estudos de figurinos, em guache, para o balé As Icamiabas (1959), outros seis estudos para a série Manequins e reproduções de fotos, jornais e editoriais de moda para revistas. A exposição é complementada por um conjunto de vestido e bolero com a primeira estampa assinada por Iberê, em 1963, para a empresa francesa de fibras sintéticas Rhodia, e que pertenceu a Maria Coussirat Camargo, esposa do artista.

 

Já a primeira individual de Eduardo Haesbaert na Fundação presta uma homenagem ao amigo-irmão do artista, Gelson Radaelli, falecido em novembro do ano passado. Foi Radaelli quem apresentou Haesbaert a Iberê Camargo, que precisava de um impressor, e de quem foi assistente entre 1990 e 1994.

 

Em cumprimento às medidas sanitárias, visitas ocorrerão de sexta a domingo, das 14h às 18h, com agendamento prévio pelo Sympla. Será permitida a entrada de, no máximo, seis pessoas por grupo.

 

Site da Fundação Iberê Camargo: http://www.iberecamargo.org.br/

 

Site Sympla: https://bileto.sympla.com.br/event/66447/d/98049

 

Crédito da foto fachada Fundação Iberê: ©Nilton Santolin

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“O Fabuloso Universo de Tomo Koizumi” Foto: ©Hunter Abrams

 

Uma explosão de cores e volumes na Fundação Iberê

 

Depois de uma temporada de sucesso na Japan House São Paulo, a exposição “O Fabuloso Universo de Tomo Koizumi”, chega ao Rio Grande do Sul. Para a mostra no Brasil, que contou com a curadoria de Natasha Barzaghi Geenen, diretora cultural da instituição nipônica, foram criadas três peças exclusivas, mesclando referências do nosso carnaval e dos quimonos tradicionais japoneses.

 

A exposição marca também a criação do Departamento de Moda, Design e Arquitetura, três pilares pouco conhecidos que sustentam a Fundação Iberê: a arquitetura de Álvaro Siza premiada com o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza (2002); os móveis por ele projetados e utilizados pela equipe e pelo público da instituição e as estampas e vestidos assinados por Iberê Camargo, nos anos 1960.

 

Tomo Koizumi – do origami à Semana de Moda de NY

“Eu venho pensando que nem todo mundo pode usar os meus vestidos, mas que todos possam se divertir vendo-os. Essa exposição mostra o lado da moda como uma fantasia e espero que possa ser o colírio para os olhos das pessoas”.

 

Tóquio, 2002. Uma revista de moda, com fotos da alta-costura de Christian Dior, assinada por John Galliano, bastou para que Tomo Koizumi, aos 14 anos, dissesse: “Quero ser estilista”. Não era a moda em si que fazia seus olhos brilharem, mas as cores vibrantes das criações de Galliano e a excentricidade de seu ídolo.
Os primeiros moldes de Tomo eram hobbies. As aulas nas faculdades de Pedagogia e Artes Plásticas na Universidade Nacional de Chiba lhe ocupavam quase todo o tempo. E foram justamente essas criações despretensiosas com organza, econômicas e de fácil aquisição no Japão, principalmente os retalhos de cores fortes, somadas à admiração pelo estilista britânico e à memória afetiva que o transformaram em um dos nomes mais importantes do mundo fashion.
“Eu queria fazer algo como alta-costura. Encontrei cortes de organza em muitas cores, mas em pouca quantidade. Era o que o dinheiro podia pagar. Fiz as combinações por causa dessa limitação, e isso resultou em misturas únicas”, recorda o artista.

 

Uma de suas criações foi compartilhada no Instagram de uma amiga. Quis o destino que a foto chegasse até o dono de uma multimarca de Tóquio, que acabou se encantando pela peça e quis revendê-la. Em 2011, Tomo lançou a sua marca homônima, vendendo inicialmente apenas para esse cliente, e começou a trabalhar como assistente de um figurinista japonês, e depois como figurinista.

 

Os figurinos, aliás, se tornaram uma grande paixão de Tomo. Produções únicas, feitas com 50m a 200m de organza, de cores e volumes extravagantes, que representam o seu universo recheado de referências nas artes tradicionais e na sua ancestralidade. Tudo ganhou mais significado quando grandes cantoras pop do Japão e globais, como Miley Cyrus, Katy Perry e Lady Gaga, vestiram suas peças.

 

Fada madrinha
Em 2019, as criações de Tomo Koizumi atravessaram o oceano e chegaram às mãos da editora de moda britânica Katie Grand. Ela estava tão apaixonada pelos vestidos bufantes que deu um jeito do jovem ter um desfile na New York Fashion Week. O amigo Marc Jacobs cederia o espaço de uma de suas lojas, localizada na Madison Avenue; a renomada maquiadora Pat McGrath se encarregaria da beauté e o igualmente renomado cabeleireiro Guido Palau se ofereceu para fazer os penteados. Tomo teria menos de três semanas para preparar vinte e seis vestidos. Ele topou.

 

O estreante selecionou peças de uma coleção anterior e, com a ajuda de apenas um único assistente, criou outras inspiradas em pinturas abstratas, com material que tinha guardado. Tudo absolutamente reaproveitado, com o que tinha em casa. Como resultado, uma plateia boquiaberta. Ninguém esperava aquela explosão de cores e volumes.
A partir deste dia, Tomo foi considerado um dos 500 nomes mais influentes da moda, lista anual e superconcorrida do Business of Fashion. Em 2020, foi finalista do Prêmio LVMH de jovens estilistas e, em setembro do ano passado, anunciou uma colaboração com Emilio Pucci. Desde a saída de Massimo Giorgetti, em 2017, a marca italiana tem apostado em coleções cápsulas assinadas por diferentes designers e, para o Verão 2021, o estilista japonês foi o convidado para criar onze looks de organza, camisetas, sandálias e uma bolsa, que misturam tons de laranja, amarelo e branco.

 

Mesmo com as portas abertas e possibilidade de maior investimento, Tomo Koizumi segue os mesmos hábitos e usa os mesmos materiais. As peças mais simples demoram cerca de cinco horas para ficarem prontas. Cada uma delas pode usar até 200 metros de tecido nas coleções, que consistem, basicamente, em vestidos e conjuntos de saia. Em entrevista para a revista Vogue, Tomo disse que continuará fazendo moda para entreter as pessoas: “Trabalhar na indústria da moda significa que, eventualmente, você precisa começar a pensar comercialmente, para que consiga vender algo, mas ainda gostaria de fazer algo para entreter as pessoas. Elas sugerem que eu tente ser mais comercial, pois estou em um momento bem quente. Não estou pronto para isso. Não quero me apressar por algo que não preciso ou não me importa. Por agora”.

 

SERVIÇO:
“O Fabuloso Universo de Tomo Koizumi”
Artista: Tomo Koizumi
Quarto andar da Fundação Iberê
Abertura 01 de maio às 14h
Visitação: até 04 de julho das 14 às 18h

Crédito da foto: ©Hunter Abrams

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“Modelar no tempo: Iberê e a moda” . Foto: ©Fabio Del Re/VivaFoto

 

Iberê e a moda

 

Em diálogo com a exposição de vestidos do estilista japonês Tomo Koizumi, pela primeira vez, a Fundação Iberê revela o “passeio” do pintor gaúcho pelo cenário da moda através de obras e documentos do acervo da instituição.

 

“Modelar no tempo: Iberê e a moda” apresenta, como uma pesquisa em andamento, oito estudos de figurinos, em guache, para o balé As Icamiabas (1959), outros seis estudos para a série Manequins e reproduções de fotos, jornais e editoriais de moda para revistas. A mostra é complementada por um conjunto de vestido e bolero com a primeira estampa assinada por Iberê, em 1963, para a empresa francesa de fibras sintéticas Rhodia, e que pertenceu a Maria Coussirat Camargo, esposa do artista.

 

Quando a arte vira moda
No final dos anos 1950, quando a moda ainda engatinhava no Brasil, a Rhodia desembarcou no país tropical em que reinava o algodão e foi cirúrgica para se tornar conhecida: contratou o visionário publicitário italiano radicado em São Paulo, Lívio Rangan (1933-1984), para comandar o marketing da empresa. Foi então que ele convidou artistas plásticos para desenhar estampas a cada coleção, entre eles: Iberê Camargo, Tomie Ohtake, Nelson Leirner, Manabu Mabe, Alfredo Volpi e Willys de Castro.

 

A escolha dos artistas por Rangan revelava o interesse em dialogar com a arte contemporânea do momento e refletia as principais tendências da arte e da moda. As coleções eram apresentadas na Feira Nacional da Indústria Têxtil (FENIT), em desfiles-show que tinham uma extraordinária força midiática, graças também à participação de artistas consagrados e de músicos brasileiros, importantes alavancas na cadeia da moda nacional.

 

A parceria entre Lívio Rangan e artistas plásticos durou aproximadamente sete anos, entre 1960 e 1967. Ele levou aos palcos da FENIT, às passarelas de todo o Brasil, a outros países e às páginas de diversas revistas nacionais, obras de artistas das mais diversas linhagens de trabalho. De lá para cá, muitos vestidos se perderam, entre eles os assinados por Iberê e Ohtake. Setenta e nove modelos com estampas de 28 artistas foram doados ao Museu de Arte de São Paulo (MASP).

 

TEXTO GUSTAVO
Iberê e a moda
Do vestido em linha reta dos anos 1920 aos excessos dos anos 1980, a moda esteve presente em diversos trabalhos de Iberê Camargo. Em 1959, o artista produziu uma série de estudos de figurinos para o balé As Icamiabas. Com libreto de Circe Amado, música de Cláudio Santoro e coreografia de Harald Lander, a peça foi inspirada em um conjunto de lendas e documentos legados pelos primeiros conquistadores e cronistas que estiveram na selva amazônica e que tiveram contato com tribos de mulheres guerreiras.

 

Para a Rhodia, entre 1963 e 1964, Iberê criou estampas. A primeira, com flores tropicais para tecido crepnyl rhodianyl violáceo, ganhou forma em conjunto único desenhado por Dener Pamplona, um dos pioneiros da moda no Brasil, para a campanha de divulgação da marca. No ano seguinte, produziu uma estampa verde-azulada para tecido musselina. Os dois vestidos originais, apresentados nos desfiles-show, ainda não foram localizados. É também entre 1960 e 1964 que Iberê pintou um pequeno número de saias e vestidos para presentear amigos.

 

No final de 1985, ao observar as vitrines do centro de Porto Alegre, Iberê Camargo deu início a uma de suas séries mais emblemáticas, a dos Manequins. No ano seguinte, participou de um desfile de lançamento das coleções outono/inverno do Grupo de Moda Vanguarda Sul, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), com um óleo sobre tela de grandes dimensões (1,80 x 2,13 cm), em que retratou as manequins Bebel, Cláudia e Crislaine. “Como já estava pintando manequins de vitrines, achei interessante poder retratar modelos vivas com toda beleza e feminilidade de quem veste moda. Fiquei encantado com a ideia e penso que a moda é uma moldura da beleza feminina. Além de ter achado muito interessante conjugar a arte com a moda dentro do museu”, disse Iberê na época.

 

Depois disso, volta-se novamente para a artificialidade dos manequins, desta vez, com cores mais sombrias: “O manequim é o protótipo da sociedade de consumo, o simulacro da realidade. As pessoas vivem dentro de caixas, assim como os manequins vivem dentro de vitrines”, afirma. Com o tempo, em contraste, os manequins passarão a dividir espaço com corpos nus e fora do padrão na obra de Iberê, até a sua fase derradeira.

 

Esta trajetória do artista, ainda pouco explorada, permitirá, no futuro, conjugar sua arte com a moda em uma grande exposição.

 

Gustavo Possamai
Responsável pelo Acervo da Fundação Iberê e que assina a organização da mostra

 

SERVIÇO:
“Modelar no tempo: Iberê e a moda”
Artista: Iberê Camargo
Átrio da Fundação Iberê
Abertura 01 de maio às 14h
Visitação: até 04 de julho das 14 às 18h

Crédito da foto: ©Fabio Del Re/VivaFoto

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“O Gesto Crispado” de Arnaldo de Melo. Fot: ©Guilherme Sorbello

 

O alfabeto particular de Arnaldo de Melo

 

Um artista com a alma inquieta, crispada e ruidosa. Três virtudes do paulistano Arnaldo de Melo, 60 anos, que extravasam em seu ateliê localizado no distrito da Sé. As obras expostas são como um presente para o público. Apesar de ter uma trajetória precoce, com a participação em exposições desde 1979, no Brasil e na Alemanha, foi em 1990 que realizou sua primeira individual, na então recém-inaugurada Galerie Roepke, em Berlim.

 

Agora, pela primeira vez na Fundação Iberê, Arnaldo apresenta vinte e seis pinturas de grandes dimensões, a maioria realizada em 2019, e outras tão expressivas produzidas nos anos 1980, quando viveu em Nova York e em Berlim. “O Gesto Crispado” foi minuciosamente pensado para acompanhar os ambientes projetados pelo arquiteto português Álvaro Siza, de forma a usufruir de suas perspectivas abertas, voltadas ao vão livre interno e aos visitantes que chegam ao terceiro piso através das rampas.

 

Numa das salas de acesso, chama a atenção o conjunto de papéis sequenciados nos quais os traços largos, feitos com vassoura embebida em tinta acrílica, definem sinuosidades e contrações até os seus limites espaciais. “A esse conjunto de vinte e seis papéis, cada qual correspondendo a uma letra do alfabeto, o artista sugere uma ordenação visual e intencionalmente avessa ao alfabeto latino do qual deriva nossa escrita fonética. O alfabeto desta exposição apresenta as vogais como norteadoras para uma escrita, para logo se dispersar como que se esbarrando ou pedindo licença poética aos gestos que caracterizam a caligrafia oriental. Uma escrita-pintura no sentido de explicitar o seu apreço pelo gesto que se quer formativo enquanto disforme, tão preciso quanto ao mesmo tempo fugaz e desinteressado, em sintonia com o momento que vivemos”, escreve o curador Agnaldo Farias, que segue:
“Ao passo em que serve de pórtico para o ingresso ao seu universo poético, declara de saída seu tributo à caligrafia oriental, à caligrafia dispensada da significação unívoca, celebrando sua condição selvagem. O caminho trilhado por nosso artista assemelha-se ao de todo artista que escapa de estruturas convencionais por entendê-las como subsumidas a princípios éticos, a sistemas comunicativos responsáveis por soluções cristalizadas, que não avançam, ao contrário, reafirmam sensibilidades e formas de expressão determinadas. O artista tenta escapar desse cerco por entendê-lo como mais do que restrito, pela promessa de apaziguamento que ele proporciona, pelo modo como induz as pessoas a preferirem aquilo que já conhecem. Mas a vida pertence à mudança, ao movimento contínuo, a crises sucessivas, discretas ou ostensivas, como se nota tão logo se coloca o pé na rua, e não será necessário viver sob o peso de pandemia para reparar nisso. A menos que se esteja definitivamente amortecido”.

 

Entre 1987 e 1990, Arnaldo de Melo frequentou a Hochschule der Künste Berlin (hoje Universität der Künste) com bolsa DAAD (sigla para Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico). Durante esse período na então West-Berlin, recebeu orientação por parte do artista Karl-Horst Hödicke, um dos primeiros pintores que firmaram a escola neoexpressionista na Alemanha, ou a chamada Wild Malerei (Pintura Selvagem).

 

Antes, em 1984 e 1985, morou e trabalhou com pintura em Nova York, seguindo de forma autodidata sua escolha pela pintura abstrata expressionista, de evidente destaque nos grandes museus americanos. Ainda em Nova York, dedicou atenção especial à explosão da pintura neoexpressionista, que já adentrava os museus e trazia vigor às galerias de arte. Em simultâneo, recebeu forte influência dos grafites e dos artistas “de rua” que iniciaram suas carreiras naquele período.

 

“O Gesto Crispado”
Artista: Arnaldo de Melo
Terceiro andar da Fundação Iberê
Visitação: até 25 de julho das 14 às 18h

Crédito da foto: ©Guilherme Sorbello

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“Um rio que passa” de Eduardo Haesbaert Foto: ©Fábio Del Re/VivaFoto

 

Um rio que passa

“Sou artista de ofício, de ateliê. Meu trabalho é muito manual, meu corpo está ali junto impresso na obra. Papel, pigmento, mão e pensamento são os elementos essenciais da minha prática. Adenso o pigmento em pastel seco de carbono com pressão a palmo sobre o papel e revelo diferentes matizes do preto que cobre e descobre o branco da superfície, por vezes rasgada, criando texturas aveludadas para o claro e para o escuro”.
Eduardo Haesbaert

“Todo artista deveria ser como um rio com suas águas que se renovam sempre”. Esta é uma das frases de Iberê Camargo que mais marcou a trajetória de Eduardo Haesbaert ao lado do artista e que inspirou a produção para a sua primeira exposição individual na Fundação Iberê.

 

“Um rio que passa” apresenta trinta e seis trabalhos inéditos, entre desenhos, pinturas e monotipias na maior parte em grande formato, um deles de 157 x 500 cm. Todos foram executados a partir do convite do diretor-superintendente Emilio Kalil, em dezembro do ano passado. “Eduardo Haesbaert e a Fundação Iberê são como personagens indissociáveis. O nosso patrono (Iberê Camargo) sempre contou com Eduardo, fazendo dele um assistente/confidente. E, por sua vez, como um guardião desses tempos vividos ao lado do mestre, foi desenvolvendo nele mesmo um artista de talento incomum, entregue, em tempo integral, ao seu mundo criativo”, destaca Kalil.

Haesbaert viveu quatro meses intensos no ateliê que tem em casa, produzindo, em média, uma obra por semana. Uma imersão para dar vazão ao sentimento e transformar os tempos de incertezas em arte. Para ele, “o tema tem a ver com o momento que estamos vivendo e, também, com o desabamento de estruturas antes consideradas sólidas e seus consequentes desajustes humanitários e ambientais. No conjunto de obras realizadas para esta exposição expresso meu pensamento sobre a tensão e a suspensão do tempo, paisagens urbanas em ruínas. Projeto imagens de uma Babel que explodiu, de um plano piloto em desconstrução, de uma torrente de água que inunda o cenário ausente de presença humana e de um trampolim à espera do salto e do mergulho de quem as contempla”.

 

“Um rio que passa” não deixa de ser um desdobramento de suas exposições: “Negro de Fumo” (2015), “Desumano” (2017) e “Torrente” (2019), realizadas na Galeria Bolsa de Arte – em Porto Alegre e em São Paulo.

Para a exposição “Torrente”, Paulo Pasta escreve: “Nessa escuridão, que quase nos cega, vislumbramos aspectos de coisas, mas que não chegam a formar ou nos dar a notícia de sua totalidade. Não sei se estas feições são reveladas pela luz ou pela escuridão. Quanto mais eu olho para os trabalhos do Eduardo, mais fico convencido de que o negrume também desvela”.

 

Nuno Ramos, em texto sobre as obras da exposição “Negro de Fumo”, destaca: “‘Diz a verdade quem diz sombra’”. Este verso do poeta romeno-alemão Paul Celan parece descrever perfeitamente o horizonte de trabalho de Eduardo Haesbaert. Feita de carvão, tinta a óleo, de pigmento, à maneira negra numa gravura ou naquela meia luz casual, é sempre a sombra, como uma matéria semis-sólida esparramando-se por tudo, que protagoniza sua obra. Parece estar tanto nas coisas como no intervalo entre elas, fazendo com que troquem de lugar para revelar uma origem (e uma espessura) comum”.

 

Paulo Pasta e Nuno Ramos participaram em 2005 e 2014, respectivamente, do projeto “Artista Convidado” do Ateliê de Gravura, coordenado por Haesbaert, onde criaram gravuras exclusivas na prensa que pertenceu a Iberê Camargo. Da soma de práticas e experiências, a Fundação Iberê compôs, ao longo dos anos, uma significativa coleção de gravuras assinadas por mais de cem artistas contemporâneos do Brasil e do exterior.

 

SERVIÇO:
“Um rio que passa”
Artista: Eduardo Haesbaert
Segundo andar da Fundação Iberê
Abertura 01 de maio às 14h
Visitação: até 25 de julho das 14 às 18h

Crédito da foto: ©Fabio Del Re/VivaFoto

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Gelson Radaelli no seu restaurante o Atelier de Massas. Foto: ©Nilton Santolin

 

Homenagem a Gelson Radaelli, por Eduardo Haesbaert

 

“Homem cheio de vida, pintor inquieto. Grande artista. Vai ser muito difícil sem a presença dele. Fica um vazio.”

 

Ainda é difícil para Eduardo Haesbaert compreender a partida precoce do amigo Gelson Radaelli, na madrugada do dia 28 de novembro do ano passado. O telefonema da esposa do artista, Rogéria, tirou seu chão. Foram mais de 30 anos de convívio.

 

A amizade dos dois começou no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, em 1986. Haesbaert fazia gravura em metal, e Radaelli sempre passava por lá para distribuir o jornal que editava na época, o Pra Ver. Poucos anos depois, dividiram o mesmo ateliê, o porão de uma casa na Rua Garibaldi. Juntos, participaram de diversas exposições coletivas, em especial com o grupo que formaram com Fabio Zimbres, A Casa do Desenho.

 

Foi Radaelli quem apresentou Haesbaert a Iberê Camargo que precisava de um impressor, em 1990. Desde então, trabalhou como assistente e impressor de Iberê até a morte do artista, em 1994.

 

“Devo muito ao Gelson, era um cara generoso. Ele já era amigo de Iberê, conheceram-se também na época do Pra Ver”, recorda Eduardo Haesbaert.

 

Gelson Radaelli era, na verdade, um grande admirador do trabalho de Iberê. Foi influenciado pelo pai, Seu Zeno, um apaixonado por arte, que ele mergulhou nesse universo. O primeiro trabalho foi criar um catálogo pessoal de Iberê, como relembra em texto escrito para o catálogo da mostra “Iberê Camargo: Visões da Redenção”, em 2019.

 

“Ainda pré-adolescente, eu já tinha fascínio pelo trabalho do Iberê; morava em uma cidade minúscula, sem livraria, sem biblioteca nem banca de revistas. Meu pai, um apaixonado pela natureza e por arte, trazia da cidade maior publicações que falavam de pintores. Lembro-me bem da coleção Gênios da Pintura, com mais de vinte pequenos livros com capa dura, que reproduziam estampas dos principais quadros de cada artista consagrado, com fama mundial. Inconformado, eu garimpava fotos e matérias em revistas – Manchete e, quem sabe, na Revista do Globo ou na Cruzeiro!? – e em alguns fascículos e catálogos que chegavam às mãos. Recortando e colando, criei o exemplar do Iberê Camargo nessa coleção que eu tanto apreciava. Minha quase veneração por esse artista se manteve após adulto e uma admiração única persiste até hoje.

 

Na metade da década de 1980, tive a sorte e o privilégio de conhecer o pintor entorpecido pela série exuberante com figuras humanas, carga matérica, infindáveis veladuras e pinceladas cheias de fúria. Não podia tê-lo encontrado em momento mais admirável. Eu permanecia imóvel no canto do ateliê, completo silêncio, invisível, assistindo o espetáculo de entrega e criação incomum, talvez única. (…) Acompanhei inúmeras jornadas do artista pela procura dessas imagens que nos ferem com delicadeza, cheias de visualidade e significados. (…) Foi num dia desses, quando o Iberê ainda morava na Rua Lopo Gonçalves, que saímos a pé para mais um percurso no Parque da Redenção. Chegamos na fonte entre árvores, naquele momento riscada pela luz do sol: um cenário de filme. À volta dela, vários mendigos conversavam e lavavam as suas roupas. O artista pareceu iluminado. Apenas com os olhos e a mão em movimento, executou desenhos lindos e fluidos como música. Depois, num gesto de gratidão, pagou os modelos: entregou uma nota de dinheiro a cada um deles e fomos embora. Nesse dia, uma figura me provocou a atenção: o homem flagrado de frente, curvado sobre o espelho d’água da fonte, com o olhar fixo no artista e suas costas acima da própria cabeça, passava uma sensação simultânea de dignidade e de sofrimento, como se estivesse pronto para carregar o peso do mundo. Esse desenho é um dos estopins na minha série de pinturas em preto e branco com figuras curvadas, estreada no desfecho do século passado.”

 

Desta relação nasceu uma pintura, Gelson Radaelli foi modelo de Iberê por um dia. Sempre prometia voltar para terminar a obra, mas o sucesso do seu restaurante Atelier das Massas, no centro histórico, lhe ocupava todo o tempo. Iberê faleceu e a pintura ficou inacabada, apenas com assinatura atrás, junto ao título: Gelson.

 

Esta obra integra a pequena mostra que dialoga com a exposição “Um rio que passa”. Complementam “Homenagem a Gelson Radaelli, por Eduardo Haesbaert” três desenhos de Iberê Camargo e outras duas pinturas de Radaelli cedidas pela Galeria Bolsa de Arte.

 

SERVIÇO:
“Homenagem a Gelson Radaelli, por Eduardo Haesbaert”
Átrio da Fundação Iberê
Abertura 01 de maio às 14h
Visitação: até 25 de julho das 14 às 18h

Crédito da foto: ©Nilton Santolin

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