Capricórnio: Ernesto Fagundes Y Paulinho Fagundes

 

Um disco que respira

 

Um silvo distante corta o ar. Um tambor começa a pulsar em seguida, acompanhado pelo coaxar de chocalhos. Por fim, um violão se apresenta vibrando todas as cordas em um único acorde. Assim se inicia o novo disco de Ernesto Fagundes e Paulinho Fagundes, com a música Pátio do Índio – homenagem ao argentino Índio Froilan, luthier de Santiago del Estero considerado o mestre maior do bombo leguero.

 

Essa abertura do álbum é um sinal que anuncia não apenas a presença de uma ancestralidade, mas também reivindica um território comum – geográfico e afetivo. Capricórnios, título do trabalho, remete ao signo de ambos os músicos – apenas mais uma característica compartilhada pelos irmãos Paulinho, nascido em um 16 de janeiro, e Ernesto, que veio à luz no dia 18 do mesmo mês, sete anos antes.

 

As 10 faixas inéditas do disco foram gestadas em uma parceria de toda a vida, mas efetivamente concebidas pela dupla em um par de semanas deste janeiro de 2021, no pátio não do Índio Forlan, mas o do apartamento de Paulinho Fagundes, grudado ao estúdio caseiro do compositor e violonista – onde depois os dois vararam noites gravando os temas recém compostos. “Deixamos nossa irmandade falar”, resume o bombo leguerista, cantor e compositor Ernesto Fagundes. O material registrado nessas noitadas criativas foi depois mixado e masterizado pelo violinista Gabriel Vieira.

 

Se Capricórnios é fruto de uma intimidade de música e sentimento, nascido de “parto normal”, como frisam os manos, também é resultado de uma busca pelas sonoridades que fazem a América Latina vibrar em um diapasão comum. Essa viagem musical pelo continente, no entanto, não foi programada antes da partida: Ernesto e Paulinho garantem que os diferentes ritmos e sotaques latino-americanos que marcam essa dezena de novas músicas surgiram espontaneamente durante o processo de composição, a partir de palavras lançadas no meio do pátio. “A maioria das músicas começou pelo nome”, explica Ernesto, logo emendado por Paulinho: “Eu preciso do nome”.

 

De combinado mesmo antes, Capricórnios só tinha o formato geral – um disco de temas novos, instrumentais, escritos e executados apenas por Ernesto e Paulinho – e a urgência de sua realização. “Sentimos a necessidade de registrar um trabalho que fosse exclusivamente nosso, mostrando a música que a gente normalmente faz”, justifica Paulinho. “Nunca tínhamos trabalhado assim juntos. A prisão da pandemia nos deixou livres para criarmos do jeito que quiséssemos”, pondera Ernesto.

 

Em Capricórnios, não há solista único. Violão e bombo leguero dividem o protagonismo, de maneira musicalmente equânime, sem concessões: o violão não precisa ceder o passo para a percussão assomar – melodia, harmonia e ritmo estão na linha de frente com o mesmo peso. “Há um preconceito com relação ao percussionista brasileiro”, lembra Paulinho. “Me sinto muito feliz por ser meu primeiro disco instrumental e que o bombo leguero esteja representado com muita dignidade”, afirma Ernesto.

 

Segundo os músicos, esse encontro ao mesmo tempo tão familiar quanto inédito extrapolou a circunstância do momento e mesmo as aptidões específicas de seus intérpretes, canalizando uma musicalidade que, acreditam, já vibrava antes ao redor dos dois. “Captamos uma sonoridade que não pertence nem a nós mesmos”, teoriza Paulinho. “Como dizia o Jayme Caetano Braun, a gente se apossou de coisas que não têm dono”, explica Ernesto, para retificar em seguida: “Na verdade, a gente não se apossa, a gente reverencia”.

 

Conjugação de espontaneidade e seriedade, talento e técnica, telurismo e universalidade, legado e inovação, Capricórnios respira. Literalmente, como no assobio de ocarina mexicana que abre o disco e no resfolegar de Ernesto que pontua boa parte das faixas como mais um instrumento de sopro; mas também alusivamente, já que as músicas encadeiam-se de maneira orgânica e fluida, conduzindo o ouvinte por um passeio sonoro tão revigorante quanto encher os pulmões de ar puro.

 

Capricórnios vem acompanhado de um documentário musical dirigido pelo fotógrafo Felipe Fraga, que registrou imagens de Ernesto e Paulinho interpretando todas as faixas do disco no meio do mato em São Francisco de Paula – uma das regiões mais bonitas e verdejantes da serra gaúcha. “Um botava o oxigênio no outro, para não deixar o irmão sem ar nessa pandemia”, exemplifica Ernesto. “Aqui tem cheiro de casa nova”, define Paulinho.

 

Faixa a faixa

A chacarera Pátio do Índio abre o disco com um chamamento terrunho, tema singular em que a base rítmica evoca algo de xamanismo indígena, mas cujo desenvolvimento melódico e harmônico ao violão ecoa sonoridades mais urbanas, resultando em um instigante casamento entre ancestral e contemporâneo – acenando já de saída a tônica que vai pautar todo o disco.

 

O espírito primitivo que ronda a faixa inicial está presente também na abertura de Capricórnio, tema seguinte que começa como um canto indígena entoado por Ernesto Fagundes. Como se desejando pegar a estrada, porém, logo a música enverada por outro caminho, tomando o rumo do Nordeste, cortejando o baião e o cateretê, com Paulinho Fagundes improvisando na guitarra influenciado pelo mestre Hélio Delmiro – enquanto Ernesto mantém o pé e o fôlego na taba.

 

O itinerário volta ao sul com Akizamba, tema que, como o nome indica, é uma zamba com o gosto da terra e do sal do sul do continente latino-americano.

 

Com a milonga Dom Euclides, Ernesto e Paulinho Fagundes reverenciam as origens. A partir do depoimento de Euclides Fagundes Filho, pai da dupla popularmente conhecido como Bagre, os músicos celebram as raízes artísticas e familiares, que remontam ao avô e chegam ao irmão Neto Fagundes, primogênito herdeiro do nome Euclides que atravessa as gerações.

 

A trilha latina segue com Atacama, outro tema que tem, na definição de Ernesto, “aire de zamba” – e aqui, ao definir a música como “aire”, novamente voltamos às imagens que remetem a ar, respiração, fôlego.

 

A milonga Até o Talo homenageia um dos grandes nomes dessa integração cultural platina: o músico Talo Pereyra, morto em 2018, argentino radicado no Rio Grande do Sul, conhecido por seu perfeccionismo e pelas histórias impagáveis que protagonizava e gostava de dividir com os amigos. Ligado à música regionalista e presença constante nos festivais, o cantor e compositor foi parceiro dos irmãos Fagundes e do patriarca Bagre em várias canções. “Bati uma chacarera no caixão dele”, recorda-se saudoso Ernesto.

 

Leguerada retoma o clima atávico de Pátio do Índio com Ernesto e Paulinho tocando bombos legueros, acompanhados por outras sonoridades percussivas etéreas e assobios remotos – como se pássaros furtivos batessem asas e trinassem em algum canto escondido da música. O tema foi o único gravado direto no estúdio, sem composição prévia nem ensaio, em sessão única. “Quero que o pessoal pergunte: ‘Qual dos bombos é o Ernesto?’”, provoca Paulinho, que quando guri assumia às vezes o bombo leguero no grupo familiar Inhanduy enquanto o mano Ernesto mostrava suas habilidades dançando a chula.

 

As reminiscências das origens ressoam também em Coxilha, faixa batizada com o nome do bairro do Alegrete em que nasceram muitos dos Fagundes. A música tem um clima andino, árido, com Paulinho dedilhando um violão sem trastes e Ernesto marcando o ritmo no bombo. “Eu me sinto no alto Peru, tocando um carnavalito”, ilustra o percussionista. Trata-se de um tema singular: enquanto Ernesto mantém uma pulsação acelerada, Paulinho ralenta a melodia em acordes alongados. Curiosamente, mesmo vibrando em diferentes tempos, percussão e violão encontram uma sintonia própria. A interpretação minimal de Paulinho remete à trilha desértica criada pelo guitarrista norte-americano Ry Cooder para o filme Paris, Texas (1984), de Wim Wenders.

 

Dos Andes para o Caribe: a seguinte Guanabacoa leva o nome de uma cidade cubana da região de Havana em que Ernesto, Paulinho e outros músicos gaúchos se apresentaram no começo dos anos 2000. O tema propõe o encontro musical e cultural de ritmos de matriz africana como o afoxé com a milonga arrabalera platina. “Pra mim, lembra os Filhos de Gandhy. Nós somos os filhos de Bagre”, brinca Paulinho, que também toca guitarra na faixa.

 

Outro argentino homenageado no disco é o jogador D’Alessandro: La Boba pega emprestado o nome do célebre drible cheio de ginga com que o ídolo colorado costumava desorientar os adversários. Como a finta desconcertante do boleiro, La Boba, a música, é uma chacarera trunca, quebrada. E é nessa pegada de tabelinha animada que os craques Ernesto Fagundes e Paulinho Fagundes encerram Capricórnios. Um golaço desses grandes músicos brasileiros, que batem um bolão em qualquer posição.

 

Texto:  Roger Lerina – Jornalista cultural

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