“AS ONDAS NUNCA PARAM”

 

“AS ONDAS NUNCA PARAM”

 

Este artigo e seu título nasceram de um comentário aleatório de uma pessoa muito importante em minha vida. Estávamos caminhando na beira da praia, conversando sobre muitos assuntos, coisas que vão e voltam, círculos que nunca cessam de acontecer. Final de tarde lindo. Pensando nisso, quero aproveitar e escrever um pouco sobre um tema que há meses penso a respeito. Um tema que nunca para, que vai e volta em minha mente. Quero escrever sobre uma preocupação antiga sobre o mundo dos vinhos – quem ensina e quem aprende.

 

Ultimamente, tenho lido com frequência que este, ou aquele, vinho é muito fácil de beber. Geralmente, essa frase é escrita em um certo sentido de descomplicação ou simplificação da bebida. Frase mais associada à vinhos de entrada, mais em conta. Ressalto aos novos consumidores do mundo do vinho que fazer um vinho “fácil de beber” (imaginando que a idéia principal seja exigir o menor esforço mental do degustador) não é uma tarefa nada fácil de ser realizada por nenhum enólogo. Fazer vinho é difícil. Fazer vinho de entrada, com custo acessível e ser bem aceito é dez vezes mais dificil.

 

Ninguém nasceu sabendo ou conhecendo vinhos. Todos aprenderam, de um jeito ou de outro, a gostar de vinhos. Uns se tornaram sommeliers, outros enólogos, outros produtores e a maioria enófilos. Você se recorda qual o tipo de vinho lhe encantou e o fez tornar um apaixonado por vinhos? Foi um vinho fácil de ser bebido?

 

A indústria do vinho no Brasil precisa, sim, de mais consumidores. As vinícolas precisam pensar mais nos seus clientes, em quem consome seus vinhos e quem realmente importa. Produtores de vinhos precisam atrair mais e mais pessoas a se apaixonarem por vinhos elaborados em nossas terras. Seres humanos que se encantem por tradições e que recomprem os vinhos. Tanto o consumidor como o produtor precisam se conhecer melhor. (Você, novo entrante, seja muito bem vindo).

 

Por isso, escrevo estas linhas. Neste vai e vem de entrada de novos aprendizes, reforço que temos que explicar que não é nada fácil viver o mundo da produção de vinhos, sejam eles engarrafados, bag-in-box, em latas ou taças. Não existe vinho fácil de ser feito. São necessárias pessoas incansáveis na busca por melhorias e que entendam de tipicidade, terroir, qualidade, entrega e pessoas.

 

Para mim, o vinho da foto (VIK) foi bem fácil de ser bebido. A vinícola ficou com o meu contato e segue me enviando promoções; funcionou bem para ambos. Me entendem agora? Estamos falando de um ícone chileno, uma verdadeira maravilha de um exemplar da cordilheira. Bebi uma garrafa sozinho e sem nenhum esforço mental.

A frase título desta coluna foi dita pela minha filha pequena. Ela olhou para o mar e disse: “nossa, pai, as ondas nunca param”.

 

Texto: Julio Gostisa

 

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